sexta-feira, 14 de março de 2008

Tipos de ensaios microbiológicos e programas de captacitação

Microbiologia


Autor: Marcelo Nicolosi
Na edição anterior, a revista Controle de Contaminação ouviu especialistas para tentar esclarecer dúvidas relativas à garantia da qualidade na análise microbiológica de produtos farmacêuticos. Desta vez, abordaremos temas como descarte de materiais, testes, validação de métodos analíticos, programa de capacitação e legislação.

Controle de segurança

A constante observação das normas e atualização de procedimentos adequadamente registrados por todos os envolvidos no processo de análise microbiológica é um forte indício de que os resultados positivos na rotina de um laboratório vão se manter, à medida que os controles, as análises de tendência e os resultados encontram-se dentro dos limites estabelecidos na validação. É o que afirma Renato Cesar Cardoso Carnevalli, Analista de Qualidade do Laboratório de Microbiologia da Johnson & Johnson.

Para o Mestre em microbiologia Fernando Amaral, consultor técnico da Única Suporte, a garantia de resultados fidedignos em microbiologia é algo complexo e que requer conhecimento de causa, além das habilidades motoras do analista: "os testes microbiológicos farmacopeicos são bastante manuais e, portanto, faz-se necessário um treinamento para o analista adquirir uma performance desejada na rotina. Além disso, alguns testes e estudos deverão ser realizados para que se possa prevenir possíveis resultados falsos". Para Amaral, além das validações dos métodos utilizados para a contagem de microorganismo, testes limites e pesquisa de patógenos, os testes de fertilidade e esterilidade para os meios de cultura são exemplos de controles de segurança: "o uso de provas positivas para a contaminação em paralelo com a amostra é algo também recomendável. É importante o conhecimento de cada técnica utilizada, sua aplicação e o erro determinado". Ele destaca que a Farmacopéia Americana, nos capítulos 1223 e 1227, trata sobre as questões de validações de métodos microbiológicos alternativos e farmacopeicos, respectivamente. Aponta ainda que outras informações podem ser encontradas na Farmacopéia Brasileira - 4ª edição, capítulo V.5. - e demais aceitas no País. "Além destes compêndios, algumas normas ISO são muito bem-vindas, como a série ISO 14.644, sobre áreas limpas, a ISO 17025, sobre boas práticas de laboratório, e outras que padronizam formas de lavagem de materiais e seu processamento e reciclagem", afirma Amaral, que continua: "além da aplicação de todas as garantias necessárias para que um ensaio microbiológico possa ocorrer com segurança, um fator que influencia significativamente no resultado final é a amostra e suas réplicas e, como a contaminação de um produto não é homogênea, a forma de garantir um resultado real é ampliar a amostragem do lote". O consultor afirma ainda que os estudos de validação já prevêem isto de forma clara. A outra questão relevante que ele levanta sobre o tema para os resultados é se esta amostra será analisada em duplicata, triplicata ou mais: "o mínimo tolerável para um ensaio de contagem em placas, por exemplo, é em duplicata".

A Farmacopéia Européia, no seu capítulo 2.6.12 (contagem total de microrganismos aeróbicos), apresenta o plano de amostragem de 5 amostras, sendo que para a aprovação, nenhuma delas deve exceder 10x o limite especificado, e no máximo duas poderão apresentar resultados na linha marginal (menor que 10x o limite especificado). Este plano, segundo Amaral, prevê o erro analítico na contagem em placas: "o fato é que quanto maior o número de amostras analisadas de um lote, e se estas forem analisadas separadamente e em pelo menos duplicata, maior será a chance de acertos no resultado final".

Segundo Maximino Bernardes Neto e Sandra Rossitto, ambos gerentes da Medlab Laboratório de Análises Científicas, para que a microbiologia traga resultados de qualidade deve-se começar pela própria área destinada ao controle microbiológico: "o laboratório (espaço) tem que ser adequado; seus equipamentos e insumos devem ser qualificados e monitorados; o pessoal deve, de fato, ser competente e constantemente treinado; um sistema da garantia da qualidade precisa estar implantado, ser seguido e os registros atualizados, compreendendo, inclusive, aqueles relativos aos procedimentos operacionais, metodologias e respectivas validações, monitoramentos e medidas corretivas e de melhoria verificadas ao longo de sua atividade, seguindo-se o que preconiza a norma NBR ISO-IEC 17025. Seja este laboratório próprio ou terceirizado".

Para eles, a partir de premissas estabelecidas, o responsável pelo laboratório microbiológico, em sinergia com a garantia da qualidade, pela obtenção de resultados microbiológicos satisfatoriamente controlados, deve perseguir e garantir:

- A utilização de insumos e embalagens de fornecedores qualificados, que comprovem documentalmente a realização do controle microbiológico dos seus produtos, desde a produção, acondicionamento, transporte e entrega, através de análises microbiológicas para controle dos pontos críticos e do insumo entregue;

- A atribuição e utilização de uma área produtiva que não ofereça pontos críticos com risco de contaminação cruzada durante o processo produtivo, com áreas controladas para estoque, expurgo, material recolhido no mercado e área de embalagem. Toda essa área, contemplando o ar ambiente, as mãos dos profissionais e as superfícies de equipamentos e utensílios podem e devem ser monitoradas através de amostragens e análises periódicas.

- Que o pessoal de produção e limpeza (todos) receba treinamentos periódicos relativos às Boas Praticas de Higiene, através de palestras apostiladas, e que a eficácia destes treinamentos seja evidenciada através de testes pontuáveis que irão apontar a necessidade, ou não, de um reforço ao grupo, ou indivíduo, que possam colocar em risco, parte ou o todo, o controle microbiológico do processo produtivo e influenciar negativamente na qualidade do produto.

- Que as águas a serem consumidas em produção e a potável sejam controladas e analisadas com freqüência, e que o profissional do controle e manutenção destes sistemas conheça a fundo as instalações, a sua operação e a qualidade da água que trata e utiliza, levando em consideração que um sistema purificador da água de produção, indispensavelmente, seja validado, a começar pela Qualificação da Instalação (IQ), seguida pela Qualificação da Operação, Manutenção, Limpeza e Sanitização (OQ) e, por final, a Qualificação da Performance deste sistema (PQ). Este processo de validação demanda, pelo menos, 12 meses de trabalho, análises físico-químicas e microbiológicas e muita documentação.

- Com uma matéria-prima confiável, área produtiva adequada, pessoal competente e dedicado, processo validado e a qualidade da água de assegurada, as chances de se ter contaminação sob controle se conclui no controle microbiológico dos lotes do produto acabado.

Como parte do Sistema da Qualidade o laboratório deve dispor de um programa documentado para a manutenção, calibração e verificação de desempenho dos equipamentos, os quais devem ser realizados de acordo com o uso e histórico do equipamento e serão baseadas na necessidade, tipo e desempenho anterior de cada equipamento, detalham Maximino Bernardes e Sandra Rossitto, que concluem sobre o tema: "os equipamentos e instrumentos utilizados no laboratório devem ser qualificados e calibrados por empresas especializadas e habilitadas que atendam aos requisitos da NBR ISO 17025 e, preferencialmente, da RBC – Rede Brasileira de Calibração, e caso o laboratório disponha de equipe capacitada, a qualificação do equipamento poderá ser efetuada pelo próprio pessoal."

Legislação

Carnevalli, analista de qualidade de laboratório de microbiologia, cita a legislação: "para cada atividade temos as ISOs e farmacopéias e a legislação Anvisa, FDA, etc.". Ele acredita que a utilização destas normas está engatinhando, isto é, quando se quer que uma estrutura seja dinâmica, correta, produtiva e de qualidade, o primeiro passo é conhecer os requisitos mínimos necessários descritos na legislação.

Sandra e Bernardes ressaltam que a legislação pertinente se aplica aos produtos, especificamente, e conforme o segmento e tipo de contato ao usuário que se propõe cada um dos produtos em sua classe e grau de risco. Os parâmetros de normalidade microbiológica variam da mesma forma. Eles informam a legislação a ser seguida: ISO 17025, Boas Práticas de Fabricação - RDC 210, Boas Práticas de Laboratório – BPL, Boas Práticas de Laboratório Clínico – BPLC, dependendo do ramo de atividade da empresa. Segundo eles, as BPL – Boas Práticas de Laboratório primam pela prática do planejamento do estudo/ensaio, de uma equipe de profissionais comprovadamente habilitados, capacitados e comprometidos, a partir da aglutinação, registro e controle de todas as informações pertinentes ao produto ou substância (artigo-teste) a ser estudado/analisado frente ao sistema-teste proposto pelo método analítico e ao seu objetivo final, garantindo total rastreabilidade dos dados em todas as etapas do estudo, assim como a confiabilidade dos resultados obtidos ao final do processo analítico, a qualquer tempo. Ainda segundo os profissionais da Medlab, a equipe de estudos e de garantia da qualidade do laboratório, bem como o patrocinador dos estudos (cliente), sob ótica das BPL, assumem total responsabilidade pelos resultados, por conta de auditorias documentadas em todas as fases críticas do estudo, como condição primordial para liberação do produto com plena segurança ao usuário final e ao meio ambiente: "o compromisso do gerente da garantia da qualidade do laboratório, auditor do estudo, permanecerá comprometido com os resultados auditados e liberados por até 20 anos da sua realização", concluem sobre o tema.

Capacitação

Renato Carnevalli afirma que quando as empresas estão em fase de certificação de operadores, isto é, um grau a mais de compromisso dos operadores com a qualidade de produtos e serviços, "o operador certificado não necessita de averiguação de suas atividades. Ele faz a sua qualidade". O consultor Fernando Amaral ressalva que o pessoal que atua no CQ microbiológico deve receber treinamento em microbiologia básica, riscos inerentes às atividades com microrganismos, métodos preventivos de contaminação, além dos assuntos inerentes aos testes propriamente ditos: "de forma geral, um analista leva meses para internalizar todo o conhecimento necessário para a rotina, e mais alguns para dominar as técnicas analíticas".

O programa de capacitação do pessoal deve ser elaborado anualmente, com revisões e inclusões periódicas, através de um planejamento frente às expectativas e necessidades almejadas pela empresa. Este programa deve prever a capacitação, treinamento e reciclagem dos profissionais, com verificação da performance individual e do grupo através da aplicação de testes pontuáveis que indicarão o desempenho e eventuais ações de melhoria necessárias. Essa é a opinião dos gerentes da Medlab, Sandra e Bernardes. Para eles, todos os registros do programa de capacitação, treinamento e reciclagem devem ser evidenciados no livro de treinamento dos profissionais e devem estar disponíveis para acesso rápido e fácil, seja pelo profissional da área, seja por auditor ocasional.

Tipos de ensaios microbiológicos
Maximino Bernardes Neto e Sandra Rossitto afirmam que os métodos mais comuns e freqüentes de ensaios microbiológicos na rotina de uma empresa estão entre as contagens de bactérias e pesquisa de bolores e leveduras, de coliformes e identificação de patogênicos e fungos (pour plate ou filtração). Todavia, segundo eles, tão importante quanto o ensaio microbiológico de um produto é a avaliação do conservante, que pode ser efetuada através do ensaio de Desafio Microbiano do Conservante (challenge-test). Para certificação da eficácia na ação de desinfetantes ou esterilizantes, que deve garantir a qualidade de um ambiente controlado microbiologicamente – explicam os profissionais da MedLab - os testes de avaliação de atividade antimicrobiana, bacteriostática e fungicida são realizados por laboratórios capacitados e, nestes testes, desafia-se a eficácia do produto, mais comumente, frente aos microorganismos E.Coli, Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa e Trichophyton mentagrophites. Eles relatam que também são realizados os ensaios microbiológicos para avaliação da atividade anti-séptica (reddish) frente ao microorganismo Staphylococcus aureus, para verificação da eficácia de enxaguatórios bucais e medicamentos de uso tópico em peles comprometidas. Para produtos estéreis, normalmente os injetáveis, entre outros testes, são realizados os ensaios de esterilidade com extração por filtração em membrana ou inoculação direta em tubos contendo os meios de cultura TSA (Soybeam-casein Digest Agar) e TSB (Soybeam-casein Digest Broth). Estes vêm sendo contemplados com o novo método de inoculação por sistema em canister fechado, comumente chamado sterites", que reduziria consideravelmente o risco de contaminação durante o procedimento de extração e inoculação da amostra.

Segundo Bernardes e Sandra, um estudo detalhado da metodologia a ser empregada deve ser realizado levando em consideração o tipo de método a ser utilizado, (por exemplo, pour plate), os possíveis erros que podem ser encontrados como erro de diluição, plaqueamento, incubação, operação e, considerando o tipo de teste microbiológico a ser utilizado, algumas características devem ser avaliadas e consideradas, como exatidão, precisão , linearidade, robustez, etc. Ainda segundo os profissionais da MedLab, quando existe apenas a necessidade de alguma adaptação da metodologia a ser empregada frente ao método farmacopêico, é importante que seja realizado um estudo comparativo entre as metodologias. A tabela I, fornecida por Sandra e Bernardes, ilustra quais são os parâmetros considerados importantes para a validação de um método analítico, dependendo do tipo de aplicação do ensaio microbiológico (qualitativo ou quantitativo).

Um comentário:

Lucas disse...

Justo o que eu procurava sobre certificado de calibracao obrigada